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Hospedando o mundo

Posted by Larissa Araújo on 14:24

Porque não tem como falar da minha experiência de intercâmbio sem falar do “couchsurfing”, uma rede social segura em que as pessoas hospedam outras de qualquer parte do mundo em suas casas, podendo compartilhar assim experiências, culturas, fazer novos amigos e praticar um idioma. Essa é a minha definição para uma das melhores experiências que tive quando o assunto é viagem. Graças ao couchsurfing, pude economizar o dinheiro da hospedagem em diversos lugares e conhecer pessoas incríveis, outras nem tanto.
Tudo começa com o cadastro no site, você informa seus dados, cidade onde mora, detalha a sua casa, o tipo de acomodação que você pode oferecer e por fim adiciona amigos. Para manter a segurança e seriedade do site, você adiciona informações sobre seus amigos, como se conheceram, há quanto tempo se conhecem, se você confia nele etc. Pronto, perfil completo, já pode buscar por um “sofá” nos lugares mais remotos do planeta.

A minha primeira experiência não foi das melhores, fui passar um final de semana na Espanha, na cidade de León e lá fiquei na casa de quatro estudantes, todos estrangeiros. O brasileiro não era dos mais simpáticos, o que me impressionou, disse que eu e meu amigo não falávamos espanhol o suficiente para ficar na casa dele e poder interagir com os outros, já que a regra era falar espanhol na casa. Tudo bem, superei essa e prossegui ainda assim com a ideia de me hospedar lá. O italiano mal falava e quase não estava em casa, sobrou o francês e a sueca, duas criaturas exóticas, mas muito simpáticas, até mesmo quando eu arriscava o proibido inglês nos diálogos.

Depois de um dia inteiro conhecendo a cidade, voltamos a nossa “casa” e encontramos portas fechadas e ninguém para abrir, esperamos, ligamos, esperamos e depois de muito tempo, alguém abriu o portão e conseguimos subir até o apartamento onde a sueca havia acabado de acordar, o francês ainda dormia e os outros não estavam por lá. Conversamos um pouco e logo fomos dormir.

No dia seguinte aconteceu a mesma coisa, chegamos depois de um dia cheio e encontramos portas fechadas, depois de longa espera, conseguimos subir. Nossos “hosts” então, nos convidaram para uma festa, achei a ideia legal, finalmente vamos interagir! Engano meu, tivemos que nos virar e conhecer as pessoas por nossa conta, até que com sucesso!

No fim da noite, com a polícia ameaçando aparecer por conta do barulho, deixamos o apartamento e voltamos pra casa, foi então que quando achei que ia descansar tive uma longa noite acordada. Na sala em que íamos dormir, se reuniram os nossos hosts e seus amigos para uma noitada regada a bebidas, música e conversas, não que eu não goste disso, gosto muito, mas esperávamos uma maior integração e ali nós éramos apenas expectadores. Foi a primeira vez que vi alguém cheirar cocaína tão de perto, tão natural.

As outras experiências seguintes foram ótimas, ou pelo menos muito boas. Liverpool. Acho que boa parte da graça de Liverpool foi por ter “surfado” no sofá do Ray. Um inglês viajante muito experiente e cheio de histórias para contar, apesar de ter rodado o mundo ainda vivia  em sua terra natal. Fomos muito recebidas e ganhamos o melhor quarto da casa, o escritório. Um sonho de escritório, livros, livros, discos, fotos, um violão, um computador, muitas anotações. História e música vivas naquela pequena sala, eu não sabia para onde olhar, o que tocar, queria ler tudo, queria ficar ali. Café da manhã regado a conversas e orientações que eu ouvia com atenção, afinal aquele homem tinha muito a ensinar. Dois dias na cidade e um maravilhoso jantar de despedida, comida indiana, música e aquele papo gostoso. Até ajudamos a preparar o jantar! Fotos registraram esse momento inesquecível.

Em Londres, foi a vez de um português no receber e fazer todos os esforços para conseguir abrigar todos em seu quarto. Éramos cinco intrusos apertados no quarto do jovem programador de computadores. Foi a primeira vez que um host nos acompanhou em um passeio pela cidade, foi um dia divertido e diferente.
Ah, Paris. Tivemos o prazer de nos hospedar na casa de franceses, três jovens amigos que dividiam apartamento em P’orte de Orleans. Um casal de namorados e o melhor amigo deles moravam na casa que foi nosso lar por cinco dias. Comunicativos de um jeito tímido, eles nos levaram logo para conhecer a cidade e aproveitar a noite num bar. No caminho de volta para casa tivemos a oportunidade de ver o metrô de um novo ângulo, fomos na cabine de operações, junto ao “maquinista” (?) durante todo o trajeto de volta.

Durante o período da nossa estadia em Paris, pudemos conhecer locais pouco visitados por turistas e aproveitar do melhor da cozinha francesa sem pagar caro para isso, coisas que só mesmo com um francês nos orientando para podermos experimentar.
Amsterdam foi a viagem mais “zen” que fiz, o nosso host turco-holandês era um amor de pessoa e tinha uma filhinha que era uma graça. Ufuk foi nos buscar na estação de ônibus, nos levou pra sua casa, nos deu todas as orientações possíveis sobre a cidade, tudo anotado num pedaço de papel cor de laranja. Fazia questão de colocar música brasileira para que nos sentíssemos em casa, nos emprestava o seu computador para que nos comunicássemos com nossas famílias e até nos levou no ponto de ônibus de manhã bem cedo, para se despedir. Não conversamos muito, mas só os seus gestos já demonstravam o amor de pessoa que ele era, além de nós, hospedou ao mesmo tempo uma norte americana muito simpática, a Lisa.

Em Bruxelas tivemos uma experiência engraçada na casa de três jovens garotos belgas, todos estudantes e amantes da vida boêmia. Quando chegamos, eles não lembravam que nós íamos, o que foi bastante divertido pelo fato da casa estar toda bagunçada e eles correrem para tentar organizar tudo. Tudo pronto e eles fizeram um almoço para nós, durante o qual conversamos sobre tudo e obtivemos dicas sobre a cidade. Nossa estadia foi bem rápida, no dia seguinte eu já deixava a cidade, mas agradecida pela hospitalidade.
Fui para Coimbra para ver mais um show da Madonna e lá tive a oportunidade de me hospedar na casa de dois simpáticos brasileiros que conheci na minha viagem para o Marrocos. Daniel e Cynthia são pessoas divertidíssimas que nos receberam de braços abertos, tivemos um jantar regado a muitos risos e conversas e depois um passeio pela cidade. Nós conhecemos os principais bairros, os melhores bares e alguns dos amigos deles. No dia seguinte após o show, mais prosa e comentários sobre o show, no dia seguinte a despedida com vontade de algum dia voltar.

Depois de tantas experiências, acho que o Couchsurfing foi uma das melhores invenções dos últimos tempos. Ela ajuda a integrar pessoas e culturas, promovendo a união e experiências inesquecíveis. Se o dinheiro está curto ou se está interessado em vivenciar o dia a dia dos nativos da cidade que pretende ir, o Couchsurfing é a melhor opção. Espero poder também receber pessoas em minha casa e encontrar muitos Rays, Ufuks, Daniels, e Cynthias pelo mundo afora.

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Na terra da banda mais famosa do planeta

Posted by Larissa Araújo on 14:21
E o frio na barriga que sinto quando o avião pousa foi maior dessa vez. Sentir que estava pousando na Inglaterra foi uma grande emoção, mas ainda temia que a imigração pudesse estragar meu sonho. A fila era enorme, para o lado dos cidadãos do Reino Unido, graças a Deus. Depois de preencher três vezes o formulário de entrada no país, estava tão nervosa que consegui errar, esperamos apenas dois chineses que estavam na nossa frente para poder então encarar o dono do carimbo.
Com as mãos um pouco trêmulas (era imperceptível aos outros, mas eu pude sentir) entreguei meus documentos ao Sr. Carimbo e temi não entender o maravilhoso sotaque britânico.            - What are you going to do here? - ele me perguntou.  – Just tourism. – Respondi com um pouco de medo do que viria a seguir.

Mais algumas perguntas e eu recebi o meu tão sonhado carimbo. Agora sim, estou na Inglaterra! Vou para Londres, vou realizar meu maior sonho! Pegamos o ônibus no aeroporto Stansted e uma hora depois eu descia na famosa Baker Street, a rua do Sherlock Holmes. Era tudo encantador demais para que eu pudesse falar alguma coisa, eu apenas sentia, olhava, respirava. “Vamos comer, por favor. Tô morrendo de fome!” e então eu saí do transe, errei ao atravessar a rua olhando para o lado contrário, me encantei com o táxi e então sentei para fazer a minha primeira refeição na terra da rainha.

Pouco tempo depois decidimos levar nossos pesados mochilões para um passeio em direção a Victoria Coach Station, ainda não era o meu momento de realizações em Londres, primeiro havíamos decidido dar um pulo em Liverpool, cidade que fica a cinco horas da capital inglesa. E lá nós fomos em direção ao Hyde Park, tive a primeira visão do Marble Arch e lembrei que a Madonna tem uma casa em algum lugar ali por perto. Tiramos umas fotos e partimos em direção a primeira cabine telefônica vermelhinha e ao primeiro esquilo saltitante do Hyde Park.

Depois de muitos passos pesados, encontramos a estação e desabamos de cansaço nos bancos à espera do ônibus. Partimos no horário marcado, pontualidade britânica, em uma viagem de belas paisagens na janela, uma paisagem inglesa, do “countryside”. Algumas paradas e chegamos a Liverpool, a cidade dos Beatles. Já era tarde da noite e só pensávamos em descansar, amanhã vamos conhecer a cidade.
Liverpool é uma cidade portuária, charmosa e que parece cenário de filme, só conseguia pensar nos grandes barcos e seus bravos pescadores, mas na prática é uma cidade calma e “órfã” dos Beatles. No dia seguinte saímos cedo para desbravar a cidade, muito bonitinha, com igrejas imensas de diferentes arquiteturas, pequenos museus e muitos estudantes, passando por um pequeno “Chinatown”, uma rua toda decorada com motivos chineses, ali podemos encontrar lojas, restaurantes, casas, tudo dos chineses que lá habitam.

Tivemos dois dias para conhecer a cidade e posso afirmar que é o suficiente, no primeiro dia decidimos andar e ver tudo por fora, o segundo dia foi o de visitar museus e o que mais tivesse para ver “por dentro”.  Um passeio pelo Albert Dock é uma boa pedida, muito bonito e cheio de atrativos, vários restaurantes, bares, lojas, tudo com uma belíssima vista para o mar. É lá também que podemos encontrar o “The Beatles Story”, famoso museu dos Beatles onde é possível encontrar inúmeros artigos da mais famosa banda do mundo. Eu não entrei no museu, confesso que não sou das maiores fãs da banda, mas dei uma passada na loja de souvenirs do museu e pude ver inúmeros artigos, que até eu, mesmo não sendo fã, gostaria de ter. Vale a pena conferir. E se assim como eu, você não tiver interesse em visitar o museu, por esperar pelos seus amigos enquanto toma um café ou um chocolate no Starbucks temático, a passagem é por dentro do museu. Nas paredes várias fotos do quarteto e computadores disponíveis para acesso, além é claro, da conexão wi-fi. O Starbucks se tornou meu lugar favorito nos momentos de descanso depois de muito andar pela cidade.

Quando a noite caiu partimos para o outro lado da cidade, o destino era o “The Cavern Club”, famoso bar onde os Beatles iniciaram a carreira. Nas ruas muitas pessoas, muitos estilos, em meio a tantos bares, casas de show, encontrei uma loja da Vivienne Westwood, minha estilista britânica favorita, uma pena estar fechada, a loja ficava praticamente ao lado do “The Cavern Club”. Uma rápida olha em volta do bar lotado, uma banda cover dos Beatles ia se apresentar em seguida, e percebi o quanto a cidade respira a banda até hoje, mesmo que seja por conta dos turistas. Uma noite animada e divertida, o lugar ideal para se divertir, ouvir boa música e fazer novos amigos, se forem tão fãs quanto você, então, perfeito!

O dia seguinte foi dedicado aos museus e ao famoso passeio dos Beatles o “Magical Mystery Tour”, eu não fui, mas quem foi gostou bastante e se emocionou ao passar pelas casas em que os integrantes da banda nasceram e cresceram, pelas ruas com nomes de famosas músicas da banda, como “Penny Lane” e o jardim “Strawberry Fields”. Ao invés de embarcar nessa aventura, decidi visitar o museu marítimo da cidade, havia uma exposição sobre o “Titanic” e outra sobre a inspeção das bagagens dos viajantes com o raio-x, muito interessante. Foi uma tarde de chuva, após a minha incursão cultural fui ao lado consumista da viagem: um enorme shopping center a céu aberto, muito bonito e organizado, gastei um bom tempo da minha tarde ali.

A noite foi dedicada ao descanso, pois no dia seguinte a viagem de volta seria longa. E foi com um belo jantar indiano regado a brigadeiro de sobremesa, que encerramos a nossa jornada na terra de John Lennon. No dia seguinte partimos cedo de volta a Londres, agora sim a minha felicidade estaria completa.

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Cores, cheiros e temperos

Posted by Larissa Araújo on 20:46
E pensar que no início tudo o que eu sentia era medo. Medo do lugar, medo das pessoas, medo da religião, santa ignorância! Mas tudo bem, o meu desespero é compreensível, era medo do desconhecido. Antes de embarcar tudo que eu pensava era que se acontecesse alguma coisa, eu compraria uma burka para usar durante toda a semana da minha estadia naquele país africano.
Passado o susto inicial, me vi no aeroporto de Marrakech, lindo! Simples, pequeno e lindo, já ali o meu medo foi dando lugar ao encanto, mas não por completo, eu ainda não havia chegado no hostel. Depois de trocar nosso dinheiro e descolar um mapa no balcão de informações presenciamos a discussão dos taxistas, de quem seríamos passageiros? Depois de algum tempo um senhor simpático que mal falava inglês nos conduziu até a entrada da Medina.
No caminho até parecíamos bobos, tudo que víamos arregalávamos os olhos e exclamávamos a nossa surpresa. Até que descemos na cidade velha de Marrakech, ou melhor dizendo, na Medina. Lá fomos nós com os nossos mochilões andar em meio a tanta gente diferente que nos olhava com curiosidade, os estranhos éramos nós. Motocicletas, pessoas, animais, carnes, pães, lenços, burkas, hijabs, cabelos, um labirinto cheio de vida e luz. Quinze minutos foram suficientes para encontrarmos o albergue do amor, o nosso lar no Marrocos.
Tudo acertado e era hora de desbravar a cidade e toda a sua cultura que pulsava intensa em cada beco ou esquina da Medina. Nunca havia visto paisagem mais encantadora: luzes, pessoas, restaurantes, barracas, lojas, música, cores. Tudo misturado formando o mais belo quadro pendurado na parede do museu da minha memória. Era tão bonito ver a vida acontecer, homens tocando música típica e passando o chapéu, mulheres com seus trajes coloridos e bordados, cobertas e ainda assim bonitas, acompanhando seus maridos e segurando as mãos dos filhos. Os vendedores de suco a procura de turistas para saborear o mais puro suco de laranja, os macaquinhos amarrados a fazer de suas vidas a distração do turista e o ganha-pão do treinador, as cobras tontas que dançam ao som da flauta, as mais variadas sementes e grãos, o colorido dos souks. As crianças prontas a se aproximar e pedir alguma coisa, a realidade por trás da fantasia dos contos.
Todos falam francês, um charme a parte, mas também arriscam inglês, espanhol, português, fica a gosto do cliente, só não pode é perder o freguês por conta das barreiras linguísticas. Para atrair o cliente vale tudo, e se em algum lugar do mundo você pode aprender a arte o negócio, esse lugar é Marrakech, um intensivo de uma semana pechinchando com os locais e você está pronto para abrir seu próprio negócio! “It’s a very good price” diz o vendedor com sotaque bastante carregado. “How much you pay?’ É o que vem em seguida se você achou caro. “Good price for me and for you” e todos terminam felizes, você que comprou um artigo lindo, barato e diferente de tudo que você já tenha visto e ele que conseguiu vender mais uma peça daquela de cashmere que ele já está cansado de ver e vai poder alimentar os seus filhos em casa.
Mais adiante você decide provar uma amêndoa, um damasco, talvez uma castanha, e sai da barraca com gramas e gramas de grãos deliciosos para enganar a fome enquanto ela ainda não venceu o seu encantamento com o local. Tapeçaria, cerâmica, pinturas, texturas, tinturas, é possível decorar um apartamento inteiro com motivos marroquinos e ainda aproveitar o melhor da cosmética natural. Batom, perfumes, óleos, delineadores, tantas cores e aromas, âmbar, jasmim, sândalo, uma prova de resistência até para as menos vaidosas! Não há como não comprar, tem-se vontade de experimentar tudo e levar mais que tudo, se possível, por favor. Não há problema, se você quer mais, temos também, cremes hidratantes para o rosto e o corpo que servem também como demaquilantes, cremes contra certos tipos leves de doenças e até descongestionantes nasais, quem precisa de Vick? Ah, lembra-se daquele óleo famoso que faz o maior sucesso nas cabeleiras mais poderosas de hollywood? Segredo, com o dinheiro pago por um frasco dele lá fora, aqui é possível comprar uns tantos. Mas não espalha, tá? E o que dizer das jóias e bijuterias? Tantas pedras lapidadas, prata, ouro, anéis, pulseiras, pingentes, o paraíso das madames!
A fome aperta e os mais diversos temperos estão a sua espera, especiarias de todos os tipos e gostos para que ninguém reclame que a comida marroquina não tem gosto. Tagine e couscous são as minhas indicações: cores, cheiros e temperos, tudo combinado para dar o melhor sabor a sua refeição e com preço mais acessível, impossível, nem vou comentar. Até o pão é delicioso, assim mesmo pego com a mão, a mesma mão que recebe o dinheiro e dá o troco e faz mais sei lá o que, mas desencana, são uns anticorpos a mais que o seu corpo adquire. A água você compra engarrafada mesmo, só para garantir. Coca-cola pode ser encontrada em qualquer lugar, até no deserto, tudo bem, não exatamente no meio do Sahara, mas bem próximo, nas últimas cidades antes do infinito de areia há sempre inúmeras propagandas, cartazes em árabe anunciando que vendemos Coca-cola, a latinha? Coisa mais linda, toda escrita em árabe.
Mas e o roteiro cultural? Cadê o turismo? Calma, você vai se cansar de andar sob aquele sol no trajeto de um palácio a outro. O que não falta é história e cultura, a pobreza pode ser vista a olho nu, mas a riqueza cultural ultrapassa qualquer limite e todos tem orgulho do seu povo. A arquitetura é um caso a parte, talvez seja preciso um mês inteiro para perceber tudo que há ali em cada entalhe de madeira, ou mármore. As portas das casas dão vida às construções cor de barro avermelhado. As mesquitas atraem olhares curiosos tanto pela magnificência das construções quanto pelo canto afinado e bonito que ecoa por toda Medina, é o som do alcorão. Hora de rezar, todos se preparam e se direcionam a Meca, fazem suas reverências, rezam e depois voltam ao trabalho. A relação com os turistas não podia ser melhor, é claro que arrancamos olhares de todos se andarmos pelas ruas com roupas muito curtas e decotes exuberantes, mas, ao contrário do que eu imaginei, não precisamos esconder nosso corpo e nossos cabelos. Até mesmo as marroquinas os mostram, não todas, mas as mais modernas circulam pela cidade com o cabelo mais brilhante e a maquiagem mais carregada. Quanto às roupas, parece que elas gostam das típicas mesmo, poucas eram as calças jeans a caminhar pela cidade. O que elas gostam mesmo é das cores, texturas e bordados e dos inúmeros modelos de túnicas, vestidos, batas que há a venda em cada centímetro quadrado do lugar. Até o turista se rende a beleza e aos detalhes daqueles trajes, um dia eu saí até com hijab na cabeça!
A música é outro ponto positivo do lugar, não há como não sentir vontade de dançar como a Jade quando tocam músicas que fizeram parte da trilha sonora da novela. Há ainda os músicos de rua, que tocam instrumentos bastante diferentes do que estamos habituados a ver e nos tocam profundamente com o som que produzem. CDs de artistas locais podem ser encontrados facilmente em qualquer lugar, e dá logo uma vontade de saber falar francês só pra acompanhar o Cheb Khaled com o seu sucesso Aisha.
E o que dizer do povo? Ah, o povo! Simpatia igual só mesmo no meu querido Brasil, educação e classe não transforma ninguém em agradável. Só mesmo sendo um povo pobre, beirando o miserável, sofrido e trabalhador para dar valor à vida e fazer dela a sua felicidade. No final de tudo, eu já estava tão à vontade que nem queria voltar, uma semana foi pouco para desfrutar dos encantos de Marrakech. Vou embora, mas já planejando um dia voltar.

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A câmera mágica

Posted by Larissa Araújo on 23:53

O sótão da casa sempre foi o paraíso para Felipe, o lugar em que ele mais se diverte, nem mesmo jogar Playstation 3 com seus amigos é melhor que explorar o sótão. Ele sempre encontra coisas legais por lá, coisas velhas que seus pais guardam apesar de todos os dias falarem que vão jogar tudo fora. Ele, claro, agradece o esquecimento deles e se delicia com cada peça do jogo de xadrez ou com a bicicleta de três rodas do seu pai, sempre encontra algo interessante para mexer. Mexer, essa é a palavra-chave do interesse de Felipe pelo sótão, ele pode mexer em tudo e ninguém reclama se quebrar algo, não vale mais nada mesmo.
Felipe sempre foi um menino muito curioso e esperto, já quebrou vários de seus brinquedos eletrônicos por curiosidade de ver como funcionam e o sótão representa a liberdade, lá ele pode fazer o que quiser e foi justamente nesse lugar mágico que ele encontrou o aparelho mais interessante que poderia existir, algo que mudaria sua vida daqui para frente: uma câmera fotográfica.
Logo que viu aquele aparelho não deu muita importância, por que uma câmera velha ia ser melhor do que a sua digital? Aquela velha câmera era pesada, feia e não tinha visor LCD ou cartão de memória, ao invés disso tinha um rolo com uma fita estranha e nenhuma pilha. Droga e agora? Como mexer nessa porcaria se não tem pilha?
Passou mais um tempo brincando e mexendo em outras coisas, mas volta e meia olhava para a câmera como se ela o convidasse a explorá-la. Resolveu então procurar pilhas esquecidas nas gavetas do armário de seus pais e então voltou com duas, colocou-as na câmera e tentou ligá-la, nenhuma imagem, nada que indicasse que estava pronta para ser usada. Felipe posicionou seu olho direito no pequeno visor e viu que parecia uma mira, como nas armas dos games de computador que ele costumava jogar, apertou o botão e esperou, de repente algo saiu de dentro da câmera, ele se espantou e largou o aparelho em cima da mesa. Passado o susto inicial, ele pegou o que parecia ser um papel branco, não entendeu o porquê daquilo, de que servia uma câmera que imprimia um papel branco?
Devia estar quebrada, pensou ao jogar o papel no chão e voltar sua atenção para um rádio que pertenceu a seu avô e uns discos de vinil que ele chamava de CDs gigantes. Meia hora depois, quando cansou de mexer no rádio, voltou-se novamente para a câmera, faria uma nova tentativa na esperança de ser bem sucedido dessa vez, foi quando viu que o papel branco que a havia sido impresso pela câmera agora tinha uma imagem. Pegou o papel e viu que estava claramente estampada a imagem do sótão e toda sua bagunça, era claramente uma fotografia. A câmera imprimiu a fotografia!
Ele não podia acreditar que tinha aquilo em suas mãos, que coisa magnífica, como num passe de mágica a fotografia aparece no papel branco que a câmera imprime. Felipe estava maravilhado com aquilo, passou horas tirando fotos e analisando-as depois. Quando seus pais subiram para lhe levar um lanche, ele falou do achado. “Uma máquina mágica, mãe. “Eu pensei que fosse comum, daquelas que não fazem nada, mas não, ela imprime a foto na hora! Nem precisa de computador, nem precisa levar as fotos no pen drive ou o cartão de memória, no moço pra revelar. Isso é maravilhoso, é melhor que a minha! Agora eu entendi porque ela não tem visor LCD pra ver as fotos tiradas, ela imprime as fotos, ela imprime as fotos!”
Felipe estava eufórico, não parava de falar, seus pais o acalmaram e explicaram que aquela era uma câmera fotográfica instantânea Polaroid, que era do seu pai e era muito usada em cenas de crime, mas que também serviam para divertir, como era o caso daquela. Após a explicação dos pais o menino estava ainda mais empolgado, tirava fotos sem parar de tudo que via pela frente, comprava rolos e rolos de filme e fotografava tudo. Foi a partir desse dia que ele decidiu o que queria ser quando crescesse: um fotógrafo. Queria sair por ai fotografando o mundo, o simples clique que pára o tempo por uns instantes e eterniza grandes e pequenos momentos.

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Ao Blush, com carinho

Posted by Larissa Araújo on 20:59

Hoje definitivamente acredito no tal ditado popular que diz que Deus escreve certo por linhas tortas. Sei que demorei a entender isso, mas finalmente eu consegui e agora sei que nada acontece por acaso e que posso ser amiga do meu destino. Quando fiz o vestibular pela primeira vez já sabendo que não ia passar e me vi sozinha numa sala de cursinho que eu odiava e praguejava todas as manhãs quando tinha que levantar cedo, enquanto meus amigos estavam todos na faculdade, me senti péssima. Já não bastasse esse quase um ano desperdiçado naquele lugar – não fosse por uma grande amizade que fiz lá -eu perdi no vestibular pela segunda vez. Naquele momento eu decidi que ia esfriar a cabeça e estudar para outra coisa, ainda bem que fiz isso, desencanei um pouco e tive um segundo semestre renovada e pronta para encarar o cursinho (dessa vez outro) e até empolgada. Novamente fiz amizades, duas pessoas que foram muito importantes pra mim nesse período. Só que novamente veio a notícia ruim e junto com ela o desespero, pela terceira vez eu perdi no vestibular. Chorei, fiquei com raiva de mim mesma e a cada dia que passava me sentia mais e mais sozinha, os meus velhos amigos ainda eram meus amigos, mas tinham suas novas vidas na faculdade, seus novos amigos. Foi então que eu decidi, sem contar a ninguém além dos meus pais, fazer o vestibular da UFRB, acho que essa foi uma das melhores decisões que já tomei na minha jovem vida. Passei e me encontrei, adoro meu curso, meus professores, minha turma e, é claro, a minha casa. A “República do Blush”, o que seria de mim se não tivesse ido parar naquele pensionato onde conheci as figurinhas que iam dividir um “apartamento” comigo? Tudo começou de maneira bem tímida, adorava a nova vida, mas pouco falava com minhas vizinhas e ainda não me sentia muito à vontade, só que a cada dia que passava uma nova resenha nos aproximava. Passou-se o primeiro semestre e então veio a intimidade de verdade, oito meninas que se identificaram apesar de todas as diferenças, quartos divididos, pias sujas, roupas emprestadas, casa bagunçada. Festas, festas e festas, dias de ócio, tardes de sono, noites em claro por trabalhos perfeitos, almoços e jantares que rendem e segredos compartilhados. Resenhas só nossas, “mural afetivo”, conselhos e gozações e até algumas briguinhas, o que seria de mim se não tivesse conhecido essas oito criaturinhas tão diferentes que chegam a ser iguais? Hoje sei que o destino me levou ao lugar certo e no momento certo, agradeço a Deus todos os dias por ter me dado esse presente, uma pena que essa família pode se “desmanchar” daqui a um tempo, posso pensar “que nada, ainda faltam três anos”. Mas três anos passam rápido, tão rápido que não se dá nem para sentir. Eu espero que quando esse dia chegar, nós possamos levar conosco todas essas lembranças boas que já aconteceram e as que estão por vir, porque já hoje estou saudosa e espero que lá na frente eu possa lembrar com um sorriso no rosto e rir de todas as nossas histórias juntas. Lembrar de cada momento compartilhado, de todas as pessoas que se agregaram ao nosso grupo e de cada item colado no nosso “mural afetivo” que provavelmente ocupará uma parede inteira. Hoje sei que as coisas só acontecem no momento certo, obrigada meu Deus por ter me dado o meu momento.

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Ilusão

Posted by Larissa Araújo on 19:35
Imagem da internet



Ela tremia e suava frio, andava sem rumo pela longa avenida. Já passava das 22h, as lojas já estavam fechadas, poucos carros circulavam, as calçadas começavam pouco a pouco a encher, eram os habitantes da noite chegando para mais uma batalha. A chuva ameaçava cair, as luzes fracas dos postes iluminavam a entrada do beco em que ela se escondia todos os dias. Carregando consigo a mochila encardida, Giovanna seguiu em busca dos seus demônios diários, retirou do bolso uma nota amassada, não sabia ao certo quanto tinha ali - estava desorientada - mas sabia que era sua última nota. No alto da ladeira avistou um homem de agasalho escuro e chapéu, aproximou-se e estendeu a mão com a nota derradeira, não o encarou um momento sequer, ele retirou do bolso do casaco um saquinho com um conteúdo branco e pegou a nota. Após a troca Giovanna desceu a ladeira e correu para o seu beco, com as mãos ainda trêmulas e a respiração cada vez mais ofegante abriu o saquinho e despejou seu conteúdo em um pequeno recipiente de vidro, separou uma pequena quantidade em uma folha de papel. Com um canudo cortado tentou aspirar aquele pó mágico, mas seu nariz já muito ferido, protestava enviando-lhe a dor. Ela já havia feito aquilo tantas vezes que suas narinas não mais suportavam, por conta das feridas no nariz decidiu usar outro método, talvez mais doloroso e complicado, mas ela era uma garota forte que sobrevivera a tantas coisas no passado, não seria isso que a faria cair. Retirou da mochila uma seringa e um cordão, preparou o pó mágico e então respirou fundo, contou até três e...
Não conseguiu. Morria de medo de agulhas, quase desmaiou. Ela estava ficando cada vez mais nervosa, precisava arrumar um jeito de injetar aquele líquido milagroso nas suas veias, necessitava daquilo para se sentir bem e com disposição. Passava mal se não usasse, sentia calafrios, tremores, inquietação. Era agressiva com todos, tinha visões estranhas que a perseguiam sempre, roia tanto as unhas que seus dedos ficavam feridos; depressão. Eram os sintomas da sua abstinência, todos os seus problemas seriam resolvidos quando conseguisse empurrar aquela agulha contra sua pele. Ela sentia raiva de si mesma, chorava copiosamente, sentia-se covarde e tentava arrancar os próprios cabelos. Estava impaciente, em mais uma tentativa de aspirar o pó mágico conseguiu machucar ainda mais o nariz que agora sangrava, mas havia conseguido, já podia sentir-se um pouco melhor, sorria enquanto o sangue escorria para o canto da sua boca, um misto de lágrimas, sangue e satisfação.
Mas o que fazer com o pó já misturado? Fechou os olhos e injetou com toda a força que conseguiu reunir, o liquido foi penetrando sua pele aos poucos e percorrendo suas veias. Suspirou aliviada, deu tudo certo, agora poderia aproveitar o seu momento de libertação. Sentia-se tão bem, suava excessivamente, mas enfim estava bem, a euforia ia tomando conta de seu corpo aos poucos, agora sim ela era quem sempre quis ser, segura de si, extrovertida. Abriu a mochila e pegou uma garrafa de vodka já no fim, bebeu como se fosse água, levantou e saiu correndo. Corria para lugar nenhum, corria para todos os lugares, era livre, era feliz, era bonita. Era tudo e podia tudo, naquele momento era dona da sua felicidade, mas por quanto tempo?




Ao som de Bliss - Tori Amos

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Máscara

Posted by Larissa Araújo on 17:52
Ela estava ansiosa. Era a primeira vez que faria aquilo depois das complicações da última cirurgia e não se sentia segura o suficiente para encarar tudo aquilo novamente, voltar ao batente. O que mais a preocupava era o fato de estar apaixonada e ter passado por isso tudo apenas para tentar conquistar seu amado. Fez as contas, devia muito do cartão de crédito e cheque especial por conta da bateria de cirurgias a qual foi submetida, mas valeu à pena, se valeu! Agora se sentia bonita e desejada, mesmo com as pequenas sequelas, “valeu à pena”, era o que repetia para si mesma todas as vezes que se deparava com um espelho.
Naquela noite ela já se preparava para ficar em casa repousando mais um pouco, lendo alguma revista de moda e assistindo filmes na TV quando o telefone tocou. Era o seu “agente” dizendo que surgiu um encontro de última hora e que ela fora a selecionada, “que bom trabalho fizeram nas cirurgias, essa noite você vai de acompanhante do Dr. Medina”. Seu coração disparou naquele momento e ela, quase sem voz conseguiu apenas dizer “sim” e então desligou o telefone. Sentou-se no sofá tentando recuperar o fôlego e com a cabeça a mil, pensava milhões de coisas. “O meu Dr. Medina? Não posso acreditar nisso, eu consegui! Eu vou sair com o Dr. Medina! É hoje! Vou conquistá-lo.”
Dr. Medina era um renomado cirurgião plástico que ela havia conhecido há uns dois anos antes da sua primeira operação e desde então não pensava em outra pessoa. Dr. Medina não havia participado de nenhuma das suas cirurgias e tampouco se lembrava dela no momento em que a escolheu pela sua nova fotografia no site da “agência”. Mas isso não importa agora, o que importa é ficar bonita, elegante. Apresentável para acompanhá-lo no jantar mais tarde. Levou algo em torno de uma hora e meia para ficar pronta, estava impecável. Vestido, sapato, cabelos, unhas, tudo estava perfeito, nunca estivera tão linda antes, nem a incômoda cicatriz conquistada após um pequeno erro na cirurgia e que agora estava devidamente escondida e coberta de maquiagem a incomodava. Estava deslumbrante.
Vinte minutos após estar pronta, seu acompanhante buzinou e ela, dotada de toda a confiança que lhe foi possível reunir, entrou sorridente no carro. “Nossa, as fotografias não mentiram, você é realmente linda!” Seus olhos brilharam, não podia acreditar que aquilo realmente estava para acontecer. Não assim tão rápido. Seguiram para o restaurante onde tiveram uma boa sintonia, comeram, conversaram, logo se identificaram, era hora do próximo passo. O tão esperado próximo passo. Ele pagou a conta e eles foram para o carro, dali em diante tudo era possível de acontecer e ela sabia que aquele enfim era o seu momento. Começara a ficar nervosa e inquieta, não sabia mais como reagir, não conseguia ser espontânea. Uma onda de medo e vergonha de si própria a invadia naquele instante.
Dr. Medina então se deu conta que não havia perguntado seu nome, ela respondeu num tom de voz quase inaudível, “Gabriela”. Linda como o nome! Era o que ele diria em seguida, mas percebia a sua inquietação e começava então a se preocupar, “o que você tem? Parece preocupada”. Nada. Apenas o medo do que poderia vir a acontecer dali em diante. Mais uma vez Dr. Medina, muito confuso, perguntou o que estava acontecendo e então ela, já chorando contou o que a consumia. Não conseguiria guardar por mais tempo aquele segredo, não poderia fazer isso com ele. Não com ele, seu possível futuro amor. “Meu verdadeiro nome é Rômulo, eu fiz cirurgia de mudança de sexo”. Com os olhos cheios de lágrimas abriu a porta do carro e correu, correu sem rumo, deixando para trás um segredo e a chance de amar, mas carregando consigo o alívio. “Pronto, agora posso ser quem eu quiser”.






Ao som de Original Sinsuality - Tori Amos

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Invisível

Posted by Larissa Araújo on 20:45
Estação Iguatemi, duas horas da tarde. Pessoas para lá e para cá, vendedores ambulantes disputando possíveis clientes no grito, sim, no grito. A arma é o gogó que, combinado com as rimas baratas, atrai a atenção de um ou dois que estão menos apressados ou de alguma criança que não resiste quando vê um doce, “mãe, compra pra mim?”. Os ônibus chegam e se vão de uma maneira que nem se percebe, um cego se aproxima e pede para avisá-lo quando o Pituba passar, crianças ajudam seus pais a vender uma latinha ou cachorro-quente e outras apenas olham ou conversam como mini adultas sentadas no banco.
E foi justamente nesse banco que algo me chamou atenção, em meio a tantos “copão é cinquenta” e “dois por um real” eu apoiei minha mochila pesada em um banco, duas garotinhas estavam sentadas conversando enquanto suas mães – também conversando – estavam atentas, à espera do maldito ônibus que leva uma eternidade para passar. Nesse mesmo banco eu vi um indivíduo pequeno, magro e de pele enrugada, bem enrugada. Os cabelos batiam um pouco abaixo da nuca, eram de um tom cinzento e parecia que não eram lavados já há algum tempo, um boné azul ajudava a esconder o rosto já coberto em parte pelos cabelos prateados.
Por alguns instantes deixei de prestar atenção na conserva fofa das duas garotinhas e, com meus óculos escuros devidamente arranjados em meu rosto, fitei aquele indivíduo, é homem ou mulher? Perguntei-me ao mesmo tempo em que tentava achar alguma pista além da camiseta do exército brasileiro e as encardidas sandálias havaianas. Aquele ser humano, sim, ser humano, estava imóvel, sua expressão era triste e estática e seu olhar distante; nem parecia estar ali onde aconteciam tantas coisas ao mesmo tempo. Depois de uns dez minutos o primeiro movimento e; bastou isso para que eu pudesse definitivamente identificar aquele ser não identificado, era uma mulher, uma senhora. Ela finalmente mudou de posição: ajeitou-se em suas pequenas trouxas e colocou suas pernas em cima do banco, eu pude ver uma saia comprida.
As meninas fofas haviam levantando para comentar algo com suas mães e ao voltarem perceberam que a aquela velha estava tentando se deitar no banco que quase cabia seu corpo inteiro. Sentaram na pontinha e continuaram a conversa fofa de onde haviam parado, eu continuei a olhar aquela senhora, por um momento esqueci que esperava um ônibus ali. Ela era tão pequena e parecia ser tão frágil, ali deitada esforçando-se para não encostar os pés na minha mochila que ainda estava apoiada na pontinha do banco. Aquele olhar perdido me dava agonia, ela realmente parecia estar em outro lugar, talvez ela imaginasse estar em um lugar bem calmo e bonito, quem sabe? Ela simplesmente não via ninguém, não se importava, talvez tenha desistido ou talvez nunca tenha tentando. Como saber?
O barulho aumentava. Alguém ligou o som, o ambulante do copão de cinquenta voltava com seu mantra para vender a plenos pulmões, o ceguinho já havia encontrado não apenas um, mas três Pitubas! Enfileirados. As meninas fofas foram embora com suas mães, a vida continuava, tudo andava, tudo tinha movimento, apenas aquela senhora ali deitada não mudava. O meu ônibus também chegou, eu peguei a minha mochila pesada, pronto, agora a senhora pode esticar as suas pernas e ficar menos desconfortável. Corri e entrei no ônibus, acabou o barulho, mas eu não consegui tirar aquela imagem da minha cabeça, a imagem daquela senhora, daquele indivíduo que ninguém enxergava.






Ao som de Todo carnaval tem seu fim - Los Hermanos

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Efeito dominical

Posted by Larissa Araújo on 13:22
Sinceramente? Não sei o que escrever, estou aqui há mais de uma hora tentando e tentando e nada me agrada, talvez seja um daqueles dias em que se acorda de “ovo virado” e não se tem inspiração e vontade de fazer nada. É. Talvez. Já tentei falar sobre um senhor de 84 anos, uma garota de 16, um futuro próximo e até mesmo sobre uma fictícia notícia de assassinato no jornal, nada surtiu efeito, nada agradou e este texto agora, também não me agrada. Talvez eu não seja mesmo uma boa escritora, apenas alguém que achou que sabe escrever por conta de meia dúzia, tá, pouco mais que isso, de poemas sem importância que qualquer menininha de 15 anos escreve quando apaixonada e um ou dois textos que me foram elogiados. Acho que a verdade é essa, não devo mesmo saber escrever, mas o que preciso então para escrever bem? Já vi em alguns filmes que escritores se isolam do mundo, vão buscar inspiração em qualquer “roça paradisíaca” que se tenha notícia ou não por aí, um lugar com cheiro de terra e barulho apenas de pássaros.
Mas, e seu eu não gostar muito desse tipo de lugar? E se eu tiver preferência pelos locais movimentados e barulhentos? Muito monóxido de carbono na atmosfera, pessoas para lá e para cá, sempre apressadas, luzes, cores, ônibus e metrô? O que fazer então? Desistir de vez e aceitar que não nasci para escrever? Como posso me encaixar se simplesmente não consigo ver muita inspiração em um local onde nada se vê? Não que eu ache ruim, longe de mim, até admiro os que conseguem viver assim, acho que todos nós em algum momento de nossas vidas precisaremos nos refugiar em um local como esse, mas e a outra beleza? A outra poesia? Eu consigo ver beleza no pôr do sol de uma metrópole, ver as luzes que se acendem nas ruas e nas janelas dos mais altos edifícios da mais longa avenida lotada de carros no engarrafamento de todos os dias. Os letreiros das lojas denunciam a vida na cidade, aquela que não dorme, que a qualquer hora do dia posso encontrar uma mesa no cantinho de um pequeno café e escrever em folhas de guardanapo algo que me veio a cabeça, só para não esquecer.
Talvez eu não deva mesmo escrever, nunca mais, não consigo escrever nada de interessante, nada profundo, apenas me sinto inspirada ao observar as pessoas entrarem e saírem do metrô, estou sempre com fones de ouvido, gosto de ouvir música enquanto viajo. Fico imaginando quem são essas pessoas e o que elas fazem, rapidamente crio uma história, a história de fulana que tem 34 anos e dois filhos que pegou o trem na Consolação e vai descer na São Bento porque marcou de encontrar o pai de seus filhos, o qual não mora mais com ela. Acho isso divertido, talvez eu seja louca, não há nada de literário nisso e talvez eu deva parar de escrever tantos “talvez”. Pode isso denunciar meu vocabulário escasso? Não sei e sinceramente ainda não sei o que escrever, nunca pensei que acordar em uma manhã de domingo ensolarada pudesse me levar a inspiração embora.
Domingos são dias chatos, não se tem muito que fazer, vizinhos bebem desde cedo e “queimam carne” o que eles chamam de churrasco, ligam o som de seus carros no último volume e assim permanecem durante quase o dia inteiro. Na TV a situação é mais complicada, me entedio só de pensar que tenho de decidir entre assistir um programa de auditório com mais de 3 horas de duração e sem um momento interessante sequer e um apresentador que não dá a palavra a seus convidados ou o jogo de futebol, isso porque nem menciono os outros canais. Se for sair de casa, só há duas opções: restaurante, que geralmente está lotado e tenho que esperar alguma mesa ficar vaga e a praia. Essa última me dá arrepios, praia no domingo é algo que não dá, não vou dizer que nunca fui, se o fizer estarei mentindo, mas sinceramente, prefiro ficar em casa, ouvir música ou ler um bom livro e quem sabe, escrever. Sei que agora estou repetindo muito o “sinceramente”, mas como havia dito antes, não sou uma boa escritora e não possuo vocabulário vasto. Talvez o motivo da minha pouca (ou nenhuma) inspiração seja exatamente o fato de hoje ser domingo, o dia do tédio, da preguiça física e mental. Estou com preguiça de lavar meu cabelo e estudar para prova, pode isso ser chamado de efeito dominical?

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Sem título

Posted by Larissa Araújo on 23:04
Então, o que faço aqui? Pra ser sincera não sei, esperava que isso fosse mais fácil ou que não me deixasse tão confusa, fiquei a me perguntar hoje o dia inteiro se eu realmente escrevo bem, aliás, eu escrevo? Achei essa coisa de fazer blog um desafio e tanto, a começar pelo título, nunca gastei tanto tempo pensando em um título. A verdade é que nunca fui muito boa com títulos, mas depois de ter o texto pronto eu sempre arranjava algo, mas esse aqui, nossa, até agora não tenho certeza se é o certo, de qualquer forma, terei algo publicado mesmo que seja essa besteira que escrevo agora. Passei a semana inteira pensando em como fazer e só hoje decidi que era o dia de realmente criar este blog, um blog sem título e sem rótulos porque é assim que a minha vida é, é assim que eu sou. Uma metamorfose.

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